“Banda Escrita: David Soares”: nova exposição 10 de Março.

Quinta exposição de um ciclo de cinco dedicada a argumentistas contemporâneos de banda desenhada portuguesa.

David Soares (Lisboa, 1976) tem singrando sobretudo como autor literário, produzindo regularmente romances, novelas e contos (em antologias próprias ou colectivas), mas igualmente textos para spoken word, e, claro, os argumentos (que vão bem além da “história”) para banda desenhada. Ainda que seja possível arrolar toda essa produção de matéria verbal e encapelá-la de “fantasia negra”, já que Soares é um exímio cultor de certos temas, imagens e motivos que se associam a esse género literário, a sua pesquisa e desenvoltura espraia-se em várias frentes. Se se podem encontrar exercícios de crueldade carnal e espiritual nos comportamentos a que as suas personagens se entregam ou são sujeitos, é quase sempre na ideia alquímica de uma descida que procura uma redenção ulterior (mesmo que não para os protagonistas eles-mesmos).

David Soares deu início à sua relação com a banda desenhada na passagem dos anos 1990 e 2000 enquanto “autor completo”, produzindo uma série de fanzines e, depois, de publicações maiores ou prózines sob a sua chancela pessoal, a Círculo de Abuso (na qual publicou igualmente os seus primeiros trabalhos de prosa literária e ensaística). Uma vez que a sua formação é em design gráfico, ramo no qual trabalhou durante alguns anos para empresas ligadas ao cinema, é notória a natureza das capas das suas publicações, e alguma da sua abordagem visual, que constroem muitas vezes montagens monstruosas e significativas.

Em 2000 publica Mr. Burroughs, desenhado por Pedro Nora (e que seria publicado em francês, mais tarde, pela Fréon) e em 2001 Sammahel, criado a solo; finalmente, em 2002, sairia a sua obra maior a solo, A Última Grande Sala de Cinema.

Mais recentemente, neste campo, dedicar-se-ia à escrita de argumentos, dando início a uma série de colaborações com vários artistas, veteranos e novos, produzindo vários títulos em que procura manter o rumo das suas preocupações, mas ao mesmo tempo explorar as potencialidades da variação dessa pesquisa, aliada à força gráfica de cada artista em particular. É assim que têm surgido títulos tais como Mucha, com Osvaldo Medina e Mário Freitas (2009), É de noite que faço as perguntas (com Richard Câmara, João Maio Pinto, Jorge Coelho, André Coelho e Daniel Silvestre da Silva, 2011), O Pequeno Deus Cego e Palmas para o Esquilo, ambos com Pedro Serpa (2011 e 2013, respectivamente), Sepultura dos Pais, com André Coelho (2014) e O Poema Morre, com Sónia Oliveira (2015).

Isto para não falar de uma mão-cheia de históricas curtas, entre as quais “Rei Arenque”, uma pequena alucinação mágico-autobiográfica, desenhada por Richard Câmara, produzida a propósito do Festival da Amadora de 2006.

Soares é, como dissemos, autor de romances, e títulos tais como A Conspiração dos Antepassados (2007), Lisboa Triunfante (2008) e O Evangelho do Enforcado (2010) tem-lhe angariado uma recepção crítica significativa, ancorando a sua primazia no território do género negro, mas igualmente merecedor de uma atenção mais alargada. A novela Batalha (2011), com ilustrações de Daniel Silvestre da Silva, apresenta uma faceta curiosa, já que a perspectiva mágica sobre a história de Portugal, ingrediente de outros escritos do autor, é construída a partir da perspectiva de uma ratazana curiosa, inteligente e cujo esforço filosófico a lança numa demanda profunda.

A leitura paralela do seu trabalho literário e de banda desenhada dá a entender um universo de grande coerência autoral e de exigência ao leitor, recompensada pelo sucessivo desvendar de mistérios ocultos, a magia real que a vida encerra, e a natureza humana.

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5 filmes de Cotrim.

Por ocasião da exposição Banda Escrita: João Paulo Cotrim, dedicada ao trabalho de escritor de banda desenhada deste autor, e patente na galeria da Bedeteca da Amadora até dia 4 de Março de 2017, a Bedeteca apresenta uma sessão de cinema de animação no próximo dia 25 pelas 16 horas.
Serão projectadas cinco curtas-metragens escritas por João Paulo Cotrim e realizadas por vários autores.
Daniel Lima, real., Um degrau pode ser um mundo (2009)
João Fazenda, real., Algo importante (2009)
Tiago Albuquerque, real., Diário de uma Inspectora do Livro de Recordes (2009)
Pedro Brito, real., Fado do homem crescido (2011)
João Fazenda, real., Sem Querer (2011)
Todos os filmes com legendas em inglês.
Duração total aproximada: 46 minutos.
Agradecimentos a Humberto Santana @ Animanostra.
Esta acção encontra-se integrada na Programação Os 5 Sentidos da Banda Desenhada.

“Banda Escrita: João Paulo Cotrim”: nova exposição 19 de Janeiro.

Quarta exposição de um ciclo de cinco dedicada a argumentistas contemporâneos de banda desenhada portuguesa.

João Paulo Cotrim nasceu em Lisboa em 1965. A sua ligação com a banda desenhada não é apenas indelével: a própria banda desenhada portuguesa contemporânea não teria ganhado muitos dos seus contornos se não tivesse atravessado o vulto de Cotrim.

Formado em jornalismo, João Paulo Cotrim tem no seu longuíssimo currículo de escrevedor de palavras crónicas, críticas, poesia, prosa, material em torno da cultura, tendo-se espraiado nas mais diversas publicações da imprensa escrita, radiofónica e televisiva. Director, fundando-a, da Bedeteca de Lisboa, em 1996, criou ali um cadinho de expansão e experimentação da banda desenhada que marcou toda uma geração e que tornaria assinalável a presença da imagem na imprensa escrita da época. Já antes, coordenando com Renato Abreu a agora mítica revista Lx Comics, tinha criado um espaço agregador de várias gerações de criadores de banda desenhada, veteranos e (então) semi-novatos, e que inflectiria a veia autoral de alguns desses nomes.

Obreiro-mor de um verdadeiro exército de livros ilustrados em que apenas por desculpa se acrescentaria “para a infância”, já para não falar dos livros em que as suas palavras são acompanhadas pelas imagens dos seus, mais que “ilustradores”, “artistas dialogantes” (como Travessa do Calado, com Alain Corbel, ou Tango, com Murai Toyonobu e Rafael Navarro), criaria algumas obras maiores da banda desenhada contemporânea portuguesa, sobre as quais presidirá indiscutivelmente Salazar, Agora na Hora da sua Morte, com Miguel Rocha (2006). Herdeiro, observador e criador de toda uma poesia que se evola do espaço urbano, sobretudo da cidade de Lisboa, encontrou com Pedro Burgos as jóias que ela encerra ao ritmo dos dias no projecto À esquina, que foi saindo no Público, e que mereceu uma recolha em 2003.

Mas além dos livros, Cotrim criou igualmente muitas pequenas jóias-histórias, curtas, nas mais diversas publicações, muitas das quais não foram recolhidas em volume (ainda?). A presente mostra agrega alguns desses materiais, com a presença de trabalhos de Daniel Lima, André da Loba, Miguel Rocha, Filipe Abranches, Pedro Burgos, Maria João Worm e Alain Corbel, de forma a demonstrar a amplitude dos seus diálogos e a força da sua escrita pela e na imagem sequencial.

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“Horizonte, azul-tranquilo”: nova grande exposição 14 de Janeiro

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Fernando Relvas – Horizonte, azul-tranquilo.

A multifacetada obra de Fernando Relvas apresentar-se-á numa retrospectiva abrangente, mostrando trabalhos éditos e inéditos, de banda desenhada, ilustração, cartoon, esboços, algum material do qual jamais foi exposto.

Com obras desde 1970 a 2016, haverá espaço para compreender a longa viagem autoral que atravessou fanzines, revistas especializadas de banda desenhada (da Fungagá da Bicharada à Tintin), jornais e publicações periódicas (acima de todas, o jornal Se7e), álbuns de projectos institucionais e a auto-edição, e mesmo outras linguagens artísticas, inclusive a animação.

Um percurso nervoso por entre géneros e humores, métodos e técnicas, veículos de publicação e modos de produção e circulação servirá de retrato de uma incessante e intranquila busca pela expressividade própria da banda desenhada, e outros territórios contíguos, mas cuja leitura e apreciação atenta desvendará um autor que é um verdadeiro sismógrafo da sociedade portuguesa e global das últimas décadas. A sua imensa galeria de personagens, nenhuma das quais assumiria o papel de “herói clássico”, são igualmente um espelho das gentes comuns que se tentam eclipsar às imposições dessa mesma sociedade.

Tumultuosa, variegada, por vezes virulenta e quase sempre sarcástica, a lavra de Relvas é uma obra-maior no panorama nacional, ainda que sob muitos aspectos fragmentária. O que não deixa de contribuir para um horizonte coeso, vincado, pessoalíssimo, onde repousará a tranquilidade do leitor.

“Banda Escrita: Rui Zink”: nova exposição 28 de Outubro.

Terceira exposição de um ciclo de cinco dedicada a argumentistas contemporâneos da banda desenhada portuguesa.
Rui Zink (Lisboa, 1961) é um profícuo autor literário (de Hotel Lusitano, 1987, a Osso, 2015), tendo escrito romances, contos, teatro, libretos de ópera e novelas (como a extraordinária A espera, de 2007) e mesmo alguns objectos literários inusitados. Nessa sua produção, integrar-se-á sem diferença de grau ou natureza a sua produção de banda desenhada, que, nas duas colaborações com António Jorge Gonçalves (A arte suprema, 1997, e Rei, 2007) assumiu de imediato um lugar de destaque na história da produção contemporânea portuguesa nessa disciplina. Além disso, mas ainda relacionado com esta área, recordemos que o seu trabalho académico também aí incide, destacando-se o seu importantísismo projecto de doutoramento, que veio a lume em 1999 com o título A Literatura Gráfica? Banda Desenhada Portuguesa Contemporânea.
Tal como ocorre na sua escrita literária, Zink dá uma particular atenção para com a “intriga” na banda desenhada, voltando a um prazer na narrativa, na construção de personagens, no espelhamento de uma sociedade concreta e hodierna, de que as letras nacionais, de certa forma, andavam arredadas, preferindo voos líricos ou abstracções conceptuais que, ainda que atingissem cumes estéticos, acabavam por pouco reflectir a sociedade imediata em que se mergulhava. Isso não significa, porém, que as suas bandas desenhadas sejam imbuídas de um realismo ao rés-do-chão. Na verdade, esse realismo encontra-se atravessado pelo absurdo, pela ironia política, pela fantasia onírica que transborda das suas personagens para as percepções distorcidas. Isso é ainda reforçado pelas “colaborações”, tão distintas, com os artistas.
Com efeito, os métodos de escrita do autor são muito particulares e nascem de um entendimento muito profundo do que significa a “escrita em colaboração”, jamais subsumindo o artista a um transcritor em imagens de uma hipotética história autónoma, mas antes compreendo aforma como duas vozes se podem reformular mutuamente para chegar a um objecto uno. Poder-se-ia dizer que Zink não é de forma alguma um mero argumentista para artistas, mas antes um co-desenhador dos livros com os seus co-escritores. Esta exposição não se centrará somente nos livros acima indicados, mas igualmente na “peça teatral em banda desenhada” O halo casto, com Luís Louro (1999), algumas das pranchas da imensa saga Major Alvega, com Manuel João Ramos (algumas das quais jamais repescadas d’O independente) e peças curtas que criou com o mesmo artista para a mítica revista K e outras plataformas, com um então iniciante André Carrilho e uma brochura com Cristina Sampaio (destes dois recuperados em alguns dos seus volumes de contos), assim como outros objectos em torno dos métodos e processos de escrita.
Uma vez que muitos dos seus romances estabelecem alianças particulares com os universos da banda desenhada, seja em termos temáticos ou formais – pense-se nos contos de Homens-Aranhas, 1994, ou em O amante é sempre o último a saber, 2011 -, a exposição contará ainda com mostras bibliográficas dos seus escritos.
Agradecimentos: Relógio d’Água, Planeta editores, Pedro Serpa.

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“Ferozes transparências”: nova grande exposição 14 de Outubro

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No próximo dia 14, na Bedeteca da Amadora, abrirá as portas a exposição “Ferozes transparências”, uma mostra da arte original dos grandes fundadores do “Underground comix”, um dos mais importantes capítulos da história da banda desenhada moderna norte-americana (sobretudo, mas que seria de uma influência extrema em países tão distintos quanto Inglaterra e Holanda, França e Portugal). Movimento de uma influência ímpar e que, em larga medida, contribuiria para as mudanças em torno da percepção social, possibilidades estéticas e alcances temáticos da banda desenhada como um todo.
Peças provenientes da magnífica colecção de Glenn Bray, , testemunha desse movimento e impulsionador da circulação artística dessas outras referências, esta será uma oportunidade única para os interessados portugueses verem trabalhos de Bill Griffith, Bobby London, Gilbert Sheldon, Jay Lynch, Jim Osborne, Justin Green, Kim Deitch, Manuel Spain Rodriguez, Rick Griffin, Robert Crumb, Ron Cobb, Rory Hayes e S. Clay Wilson.
A exposição estará aberta a partir de Sexta-feira, 14, mas não haverá cerimónia de abertura. A vernissage oficial terá lugar durante o Festival da Amadora (data a anunciar), para poder contar com a presença de G. Bray.

6 OUT: “O turno da noite” de e com Nuno Duarte e Carlos Gonçalves.

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Na próxima Quinta-feira, dia 6 de Outubro, pelas 21h00, no âmbito da exposição Banda Escrita: Nuno Duarte, a Bedeteca da Amadora exibirá a série de animação O turno da noite, escrita por Nuno Duarte e realizada por Carlos Fernandes. Esta sessão contará com a presença dos autores, que animarão uma conversa com o público.

Para mais informações sobre a série, visitem este link, assim como o blog do próprio projecto aqui.

“Banda Escrita: Nuno Duarte”: nova exposição 2 de Setembro.

Segunda exposição de um ciclo de cinco dedicada a argumentistas contemporâneos da banda desenhada portuguesa.

Nuno Duarte nasceu em Lisboa em 1975, e a sua integração como freelancer na equipa das Produções Fictícias colocá-lo-ia no caminho de se tornar guionista profissional, colaborando em séries televisivas de grande exposição tais como Bocage, Conta-me como foi, Liberdade XXI e Bem-Vindos a Beirais. Na sua escrita para outros suportes, poderemos destacar as séries de animação The Tribe, co-escrita por Duarte, ou Turno da Noite, ambas revelando uma maior possibilidade de controlo narrativo e liberdade conceptual.
Profissional da escrita de guiões para televisão, cinema e animação, mas também autor de contos literários e outros textos, a banda desenhada é tão-somente um outro veículo de expressão para Nuno Duarte, mas no qual procura não apenas respeitar os instrumentos específicos formais a que ela acede, como procura “vestir” os seus colaboradores artísticos de uma forma vincada, em que as características e forças de cada um deles se destaca.
É neste campo que se revelou a um público mais restrito com Paris Morreu, co-criado com Pepedelrey (Livros el Pep/Mmmnnnrrrg), mas comA fórmula da felicidade, em dois volumes (Kingpin Books: 2009-2010), desenhados por Osvaldo Medina, a entrada de Duarte num quadro mais alargado consolidou-se de imediato. Seguir-se-ia O baile com Joana Afonso (Kingpin: 2013) e Fri(c)ções com João Sequeira (El Pep: 2014). Ainda este ano será lançado o livro O outro lado de Z com Joana Mosi, (Kingpin), de que se mostram algumas pranchas.
Apesar da total liberdade e circunstancialidade da colaboração com vários artistas, Duarte tem-se mostrado particularmente atento à realidade, histórica e contemporânea, de Portugal. Mesmo quando a ficção emprega animais antropomorfizados (ou pessoas teriomórficas), como em A fórmula da felicidade, ou até abarca elementos de géneros específicos (o horror-zombie de O baile), as suas histórias estão plenamente ancoradas nas especificidades culturais e até psicológicas da nossa realidade. Forte nos diálogos realistas e em retratos psicológicos dinâmicos e cheios das suas personagens (quase sempre “incompletas”, como seres humanos reais), Duarte não abdica ainda assim de um humor corrosivo virado contra ideias feitas, sobretudo aquelas que fazemos de nós mesmos.

 

Blog do autor (moribundo): http://semcomentarios2.blogspot.pt/

2SET Banda Escrita, Nuno Duarte