“Banda Escrita: João Paulo Cotrim”: nova exposição 19 de Janeiro.

Quarta exposição de um ciclo de cinco dedicada a argumentistas contemporâneos de banda desenhada portuguesa.

João Paulo Cotrim nasceu em Lisboa em 1965. A sua ligação com a banda desenhada não é apenas indelével: a própria banda desenhada portuguesa contemporânea não teria ganhado muitos dos seus contornos se não tivesse atravessado o vulto de Cotrim.

Formado em jornalismo, João Paulo Cotrim tem no seu longuíssimo currículo de escrevedor de palavras crónicas, críticas, poesia, prosa, material em torno da cultura, tendo-se espraiado nas mais diversas publicações da imprensa escrita, radiofónica e televisiva. Director, fundando-a, da Bedeteca de Lisboa, em 1996, criou ali um cadinho de expansão e experimentação da banda desenhada que marcou toda uma geração e que tornaria assinalável a presença da imagem na imprensa escrita da época. Já antes, coordenando com Renato Abreu a agora mítica revista Lx Comics, tinha criado um espaço agregador de várias gerações de criadores de banda desenhada, veteranos e (então) semi-novatos, e que inflectiria a veia autoral de alguns desses nomes.

Obreiro-mor de um verdadeiro exército de livros ilustrados em que apenas por desculpa se acrescentaria “para a infância”, já para não falar dos livros em que as suas palavras são acompanhadas pelas imagens dos seus, mais que “ilustradores”, “artistas dialogantes” (como Travessa do Calado, com Alain Corbel, ou Tango, com Murai Toyonobu e Rafael Navarro), criaria algumas obras maiores da banda desenhada contemporânea portuguesa, sobre as quais presidirá indiscutivelmente Salazar, Agora na Hora da sua Morte, com Miguel Rocha (2006). Herdeiro, observador e criador de toda uma poesia que se evola do espaço urbano, sobretudo da cidade de Lisboa, encontrou com Pedro Burgos as jóias que ela encerra ao ritmo dos dias no projecto À esquina, que foi saindo no Público, e que mereceu uma recolha em 2003.

Mas além dos livros, Cotrim criou igualmente muitas pequenas jóias-histórias, curtas, nas mais diversas publicações, muitas das quais não foram recolhidas em volume (ainda?). A presente mostra agrega alguns desses materiais, com a presença de trabalhos de Daniel Lima, André da Loba, Miguel Rocha, Filipe Abranches, Pedro Burgos, Maria João Worm e Alain Corbel, de forma a demonstrar a amplitude dos seus diálogos e a força da sua escrita pela e na imagem sequencial.

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“Horizonte, azul-tranquilo”: nova grande exposição 14 de Janeiro

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Fernando Relvas – Horizonte, azul-tranquilo.

A multifacetada obra de Fernando Relvas apresentar-se-á numa retrospectiva abrangente, mostrando trabalhos éditos e inéditos, de banda desenhada, ilustração, cartoon, esboços, algum material do qual jamais foi exposto.

Com obras desde 1970 a 2016, haverá espaço para compreender a longa viagem autoral que atravessou fanzines, revistas especializadas de banda desenhada (da Fungagá da Bicharada à Tintin), jornais e publicações periódicas (acima de todas, o jornal Se7e), álbuns de projectos institucionais e a auto-edição, e mesmo outras linguagens artísticas, inclusive a animação.

Um percurso nervoso por entre géneros e humores, métodos e técnicas, veículos de publicação e modos de produção e circulação servirá de retrato de uma incessante e intranquila busca pela expressividade própria da banda desenhada, e outros territórios contíguos, mas cuja leitura e apreciação atenta desvendará um autor que é um verdadeiro sismógrafo da sociedade portuguesa e global das últimas décadas. A sua imensa galeria de personagens, nenhuma das quais assumiria o papel de “herói clássico”, são igualmente um espelho das gentes comuns que se tentam eclipsar às imposições dessa mesma sociedade.

Tumultuosa, variegada, por vezes virulenta e quase sempre sarcástica, a lavra de Relvas é uma obra-maior no panorama nacional, ainda que sob muitos aspectos fragmentária. O que não deixa de contribuir para um horizonte coeso, vincado, pessoalíssimo, onde repousará a tranquilidade do leitor.